Eu, assim como você e todo mundo, vi o funeral de Michael Jackson. Todo mundo se emocionou com sua filha, com seus irmãos, seus amigos, suas músicas, com as palavras ditas na cerimônia e com o espetáculo no geral.
Com certeza o funeral de Michael Jackson foi a melhor coisa produzida por ele nos últimos 15 anos, um epílogo à altura da sua vida. Mas seu funeral foi além disso. Foi um ato capaz de limpar a sua biografia. Michael foi um gênio, um grande artista e o maior nome da música pop da história, em termos de popularidade, vendas e impacto mercadológico, mas também foi o cara que passou a perna no amigo Paul McCartney e comprou as músicas dos Beatles, balançou um bebê pela janela e foi acusado de pedofilia várias vezes. É preciso olhar para o fenômeno Michael Jackson sem mitificações, como se isso fosse possível... Mas vamos tentar.
Sua obra foi parte de um movimento que já começara décadas antes, de assimilação da música negra pelo mercado branco americano e, por tabela, pelo mercado mundial. Não foi Michael sozinho que fez isso ou inventou isso, embora tenha sido o mais bem sucedido nessa empreitada. Esse movimento teve grande impulso com a Motown, sua antiga gravadora e também de Steve Wonder, Marvin Gaye, Diana Ross, Temptations e muitos outros, e consistia em tirar da black music seu lado hard que tradicionalmente está nas suas letras, ou seja: sexo e política. Enquanto James Brown cantava “Sex machine” ou “Say it loud, I`m black and I`m proud”, artistas da Motown, como Stevie Wonder cantavam “You’re the susnhine of my life” e o Jackson Five tinha um band leader criança cantando “A-B-C/ One – two- three/ Do-re-mi” e todos eram geniais.
Mesmo os contemporâneos de Michael usavam e abusavam da tradição de falar sobre sexo, como Prince que foi durante anos o seu contraponto, mais ousado na música e na atitude e bem menos popular e simpático do que Michael. Essa rivalidade repetia uma tradição da música pop, que remetia aos Rolling Stones e Beatles, com os Stones ocupando o papel de “lado mau” dos Fab Four. E o melhor de tudo é que todos, Prince e Michael, Beatles e Stones, são geniais e fundamentais na história da música. Quanta diferença de qualidade em relação à música pop de hoje em dia, hein?
Michael era o cara certo na hora certa. Cantava e dançava como ninguém, era um bom moço que o mundo conhecia desde criancinha. Tudo que ele precisava fazer era se livrar dos irmãos menos talentosos e encontrar o produtor certo, que desse a base musical que lhe faltava (Michael não tocava instrumentos, não compunha todas as suas músicas e nem fazia seus arranjos) e ele estaria pronto para dominar o mundo. Aí veio Quincy Jones e nasceram Off the wall e, principalmente, Thriller. O resto é história.
Mas nos últimos tempos, tava difícil ser fã de Michael Jackson e era até meio constrangedor dizer isso. Michael passou de menino prodígio para adulto freak e acho que o momento que isso começou foi quando ele lançou o Bad, que tinha o seguinte refrão: “Porque eu sou mau/ você sabe que sou mau/ realmente mau”. Dava pra acreditar que Michael Jackson era mau, por mais que ele pegasse na virilha e fizesse cara de malvado? Acho que nessa época começou uma crise de personalidade, credibilidade e criatividade que ia dar no que deu.
Era complicado explicar para alguém mais jovem que aquele cara branquelo, esquisito, vestido de soldadinho de chumbo e acusado de pedofilia era capaz de fazer músicas geniais. Quem assistiu os últimos shows e clipes e tem um pingo de senso crítico ficava constrangido com a infantilidade de tudo aquilo. A música era o que menos importava, o que importava era a magalomania, a pirotecnia e o culto à personalidade, com fãs chorando, desmaiando, gritando e pouco se lixando para a música. E a música de Michael não precisava desses artifícios, como precisam os pop stars que vieram no seu rastro, como Britney Spears, Justin Timberlake, Madonna e vários outros que beberam da sua fonte e usaram muitos dos seus truques.
O seu funeral, totalmente dentro da tradição negra americana, devolveu Michael às suas raízes. Mostrou que apesar de tudo ele era negro, um artista negro. Mas nunca foi santo e nem um músico revolucionário, no sentido de criar uma obra de ruptura. Foi revolucionário enquanto artista e acho que não veremos nada parecido no futuro. Ele não foi um mártir que se sacrificou pelas crianças e nem foi assassinado pela imprensa, embora tenha sofrido muito na mão dela. Mas será que ele era inocente nesse processo? Não foi ele quem alimentou a imprensa durante anos com bizarrices de todo o tipo? Michael achou que era maior que a vida e não era. Não enquanto estava vivo. Agora, ele é maior que tudo e em breve teremos, assim como temos com Elvis, peregrinações, aparições e cultos quase religiosos ao rei do pop. Michael ainda vai dar muito o que falar e ainda vai render muita grana por muito tempo, mas, como todo grande artista, é a sua obra que vai continuar e isso é o que importa.
Com certeza o funeral de Michael Jackson foi a melhor coisa produzida por ele nos últimos 15 anos, um epílogo à altura da sua vida. Mas seu funeral foi além disso. Foi um ato capaz de limpar a sua biografia. Michael foi um gênio, um grande artista e o maior nome da música pop da história, em termos de popularidade, vendas e impacto mercadológico, mas também foi o cara que passou a perna no amigo Paul McCartney e comprou as músicas dos Beatles, balançou um bebê pela janela e foi acusado de pedofilia várias vezes. É preciso olhar para o fenômeno Michael Jackson sem mitificações, como se isso fosse possível... Mas vamos tentar.
Sua obra foi parte de um movimento que já começara décadas antes, de assimilação da música negra pelo mercado branco americano e, por tabela, pelo mercado mundial. Não foi Michael sozinho que fez isso ou inventou isso, embora tenha sido o mais bem sucedido nessa empreitada. Esse movimento teve grande impulso com a Motown, sua antiga gravadora e também de Steve Wonder, Marvin Gaye, Diana Ross, Temptations e muitos outros, e consistia em tirar da black music seu lado hard que tradicionalmente está nas suas letras, ou seja: sexo e política. Enquanto James Brown cantava “Sex machine” ou “Say it loud, I`m black and I`m proud”, artistas da Motown, como Stevie Wonder cantavam “You’re the susnhine of my life” e o Jackson Five tinha um band leader criança cantando “A-B-C/ One – two- three/ Do-re-mi” e todos eram geniais.
Mesmo os contemporâneos de Michael usavam e abusavam da tradição de falar sobre sexo, como Prince que foi durante anos o seu contraponto, mais ousado na música e na atitude e bem menos popular e simpático do que Michael. Essa rivalidade repetia uma tradição da música pop, que remetia aos Rolling Stones e Beatles, com os Stones ocupando o papel de “lado mau” dos Fab Four. E o melhor de tudo é que todos, Prince e Michael, Beatles e Stones, são geniais e fundamentais na história da música. Quanta diferença de qualidade em relação à música pop de hoje em dia, hein?
Michael era o cara certo na hora certa. Cantava e dançava como ninguém, era um bom moço que o mundo conhecia desde criancinha. Tudo que ele precisava fazer era se livrar dos irmãos menos talentosos e encontrar o produtor certo, que desse a base musical que lhe faltava (Michael não tocava instrumentos, não compunha todas as suas músicas e nem fazia seus arranjos) e ele estaria pronto para dominar o mundo. Aí veio Quincy Jones e nasceram Off the wall e, principalmente, Thriller. O resto é história.
Mas nos últimos tempos, tava difícil ser fã de Michael Jackson e era até meio constrangedor dizer isso. Michael passou de menino prodígio para adulto freak e acho que o momento que isso começou foi quando ele lançou o Bad, que tinha o seguinte refrão: “Porque eu sou mau/ você sabe que sou mau/ realmente mau”. Dava pra acreditar que Michael Jackson era mau, por mais que ele pegasse na virilha e fizesse cara de malvado? Acho que nessa época começou uma crise de personalidade, credibilidade e criatividade que ia dar no que deu.
Era complicado explicar para alguém mais jovem que aquele cara branquelo, esquisito, vestido de soldadinho de chumbo e acusado de pedofilia era capaz de fazer músicas geniais. Quem assistiu os últimos shows e clipes e tem um pingo de senso crítico ficava constrangido com a infantilidade de tudo aquilo. A música era o que menos importava, o que importava era a magalomania, a pirotecnia e o culto à personalidade, com fãs chorando, desmaiando, gritando e pouco se lixando para a música. E a música de Michael não precisava desses artifícios, como precisam os pop stars que vieram no seu rastro, como Britney Spears, Justin Timberlake, Madonna e vários outros que beberam da sua fonte e usaram muitos dos seus truques.
O seu funeral, totalmente dentro da tradição negra americana, devolveu Michael às suas raízes. Mostrou que apesar de tudo ele era negro, um artista negro. Mas nunca foi santo e nem um músico revolucionário, no sentido de criar uma obra de ruptura. Foi revolucionário enquanto artista e acho que não veremos nada parecido no futuro. Ele não foi um mártir que se sacrificou pelas crianças e nem foi assassinado pela imprensa, embora tenha sofrido muito na mão dela. Mas será que ele era inocente nesse processo? Não foi ele quem alimentou a imprensa durante anos com bizarrices de todo o tipo? Michael achou que era maior que a vida e não era. Não enquanto estava vivo. Agora, ele é maior que tudo e em breve teremos, assim como temos com Elvis, peregrinações, aparições e cultos quase religiosos ao rei do pop. Michael ainda vai dar muito o que falar e ainda vai render muita grana por muito tempo, mas, como todo grande artista, é a sua obra que vai continuar e isso é o que importa.



