sábado, 30 de janeiro de 2010

“Oncinha listrada, coelhinho peludo, vão se f...”

Ainda não assisti Avatar. Acho que sou um dos últimos terráqueos que ainda não assistiu Avatar. Confessar isso assim para minha meia dúzia de leitores me deixa até meio constrangido, mas não assisti e pior: não tenho a menor vontade de fazê-lo ou a menor curiosidade de ver o 3D, os efeitos especiais ou a história, que nem procurei saber direito do que se trata.
Tem várias outras coisas que não me interessam nem um pouco e não tenho nenhuma angústia ou constrangimento em assumir isso. Assim como não tenho a menor ansiedade de acompanhar todas as novidades e todas as tendências que surgem a cada dia. Não tenho twitter, não tenho IPhone, não faço parte de nenhuma ong para salvar o mundo, não tenho a menor vontade de ter um e-reader, não deixei de comprar CDs e nem pretendo, não baixo filme pela internet, não faço ioga, meditação transcendental, sexo tântrico ou leio livro de autoajuda, nunca li e nem pretendo ler Paulo Coelho, Harry Potter, o Crepúsculo ou a trilogia Senhor dos Anéis, não faço parte dos 80% que acham o governo Lula o máximo, não gosto de axé music, funk carioca, Jorge Vercillo, Ana Carolina, Seu Jorge, Malu Magalhães, Fresno e bandas novas que imitam bandas antigas que já ouvi.
Outro dia desses, em pleno engarrafamento, vi duas coisas que me chamaram mais a atenção do que tudo isso que escrevi antes. A primeira coisa foi um adesivo colado num Chevette velho, bege e todo enferrujado, dirigido por um sujeito gordo, feio e meio tosco, um típico “looser” como diriam os americanos. Mas o adesivo colado no seu Chevette era um primor da mais elevada autoestima: “A sua inveja é a minha força”.
Diga aí se o cara não tem uma autoestima admirável? Achar que alguém vai ter inveja dele, naquele Chevette velho e enferrujado, sem ar condicionado e soltando fumaça é a prova cabal de que aquele sujeito não se acha: ele tem é certeza! Parabéns para ele.
A outra coisa que chamou minha atenção foi uma enigmática pichação, num dos muros de concreto de um dos maiores canais de esgoto da cidade. Ela dizia: “Foda-se os home”, assim mesmo, com erro de concordância e tudo. A frase é um primor de fúria e inconformismo nilista, mas de quem será que o autor está falando? Seria da polícia, dos políticos, do sistema? Prefiro crer que a frase é na verdade uma obra aberta, onde cada um de nós pode escolher quem vai mandar se foder. Ali, naquele engarrafamento num dia de verão, ler “Foda-se os home” foi um bálsamo, um ato libertador quase que catártico, que me fez suportar um pouco mais do meu dia estressante, chato e calorento. Foda-se Avatar, foda-se o aumento do IPTU, foda-se o engarrafamento, foda-se o calor, foda-se meu trabalho, foda-se o governo, foda-se tudo e todos que encham o meu saco.
Ao artista que escreveu essa singela frase, fica aqui minha homenagem e meus sinceros agradecimentos e “Foda-se os home”!

domingo, 10 de janeiro de 2010

Na natureza selvagem.

Sou um animal urbano, assim como um poddle, uma barata de esgoto, um pardal ou um gato vira-lata. Não consigo me adaptar à vida selvagem, não tenho nenhuma aptidão para bicho-grilo, não gosto de produtos orgânicos, banho frio, calor, animaizinhos silvestres, picadas de insetos e nem de nada dessa baboseira de “sentir a energia da natureza”. Acho que lugar de ver bicho é no Animal Planet e se a humanidade evoluiu tecnologicamente a ponto de inventar a cama box, o chuveiro quente e o ar condicionado, quem sou eu para negar tudo isso? Estou muito mais para os Jetsons do que para os Flintstones, embora prefira o desenho do velho Fred ao do simpático George.
Mesmo assim aceitei o convite de uns amigos e resolvi passar uns dias no Vale do Capão, um lugarzinho muito simpático, com cachoeiras, florestas, clima aprazível e que atrai vários espécimes que parecem estar procurando onde vai ser a próxima edição do Festival de Woodstock. Tive a impressão que se alguém jogasse um sabonete e uma carteira de trabalho na praça, ficaria muito pouca gente por lá.
Depois de horas de viagem, chegamos ao nosso destino. Na pousada, tudo que queria era um banho regenerador. Mas que nada... O chuveiro caia uma dúzia de pinguinhos gelados e o banho virou uma provação e um teste de paciência. Em seguida, um duelo com uma aranha caranguejeira enorme, que observava atentamente o meu sofrido banho, certamente atraída pela involuntária coreografia que precisava fazer para me molhar diante de limitadíssima oferta de água. Quando fui pegar a toalha, o aracnídeo caiu na minha frente. Ficamos ali eu e ele, ambos assustados, um de frente para o outro. Me esgueirei sorrateiramente até um sapato e pensei se devia devolver a aranha à natureza ou esmagar a criatura. “Será que é crime matar uma aranha? Será que o Ibama vai me prender?”. Enquanto refletia sobre isso com o sapato na mão, a aranha assumiu o que achei ser uma posição ameaçadora. Era ela ou eu! Como estou aqui escrevendo esse post, fica fácil adivinhar o que aconteceu com o animalzinho.
Na hora de dormir, os ruídos da mata ao fundo só não eram piores do que o zumbido infernal dos mosquitos. Eu fechava os olhos e tudo que vinha à minha mente era a cena dos helicópteros em Apocalipse Now, ao som da “Cavalgada das Valquírias”, de Wagner. Mesmo assim, apesar do barulho, da coceira das picadas, do calor infernal, em algum momento adormeci e tive tórridos sonhos eróticos com meu aparelho de ar condicionado.
Nos dias seguintes, minha mente urbanóide cansada e traumatizada produziu mais alguns delírios e em alguns momentos eu parecia ser transportado para “Apocalipse Now”. Me sentia como o personagem de Martin Sheen, em busca do Coronel Kurtz, andando pela selva do Vietnã, desbravando trilhas sinuosas e cheias de pedras, cruzando riachos caudalosos e travando contato com criaturas exóticas. Em algum momento, me veio na cabeça um flashback tardio da minha cada vez mais distante juventude e lembrei de “Welcome to the jungle”, clássico do Guns n`Roses, na voz esganiçada de Axl Rose que berrava: “You know where you are? You`re in the jungle, baby/ You`re gonna die”. Será que eu estava enlouquecendo de vez?
Mas deu tudo certo no final, apesar de algumas escoriações e picadas de inseto, sobrevivi e depois de alguns dias estava de volta ao meu habitat natural. Confesso que esses dias no mato foram até divertidos, mas quando retornei à civilização fui logo procurar um engarrafamento, um daqueles cheios de monóxido de carbono, para matar a saudade. É como eu disse lá no início: sou um animal urbano e estou mais para barata de esgoto do que para aranha caranguejeira. Por falar nisso, que Deus a tenha em sua infinita bondade. Amém.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O primeiro domingo sem Lombardi.

Desde que o mundo é mundo, domingo é dia do programa Sílvio Santos. Numa visão teológica bastante particular, chego a acreditar que Deus criou o céu e a terra em seis dias só para descansar no sétimo, assistindo o “Qual é a música?”, tentando acertar a palavra no “Roletrando” ou pedindo para sua criação dar certo no “Porta da Esperança”.
O domingo com Sílvio Santos é uma constante universal, como a lei da gravidade, a fórmula da água e o especial de Roberto Carlos no Natal. São coisas que são assim e pronto. Inquestionáveis. A gente pode até não assistir ao programa, mas saber que ele está passando dá uma sensação de segurança, uma tranqüilidade e uma certeza que na loucura do mundo que muda a cada instante, certas coisas sempre serão as mesmas. É como se fosse possível voltar para a casa da sua infância e sentir aquela felicidade que na sua lembrança aumenta a cada dia, na mesma medida em que a cada dia ficam mais distantes aqueles míticos tempos da aurora da sua vida, onde sempre tinha uma avó ou uma tia vendo o “Namoro na TV” e que você sonhava em ganhar um tênis Montreal, “porque você é jovem”.
Mas eis que Lombardi morre e com a morte do dono da voz misteriosa que acompanha Sílvio desde o Big Bang vem a constatação que um dia o "patrão" também pode não estar lá, assim como não está mais lá a sua ingenuidade em achar que você vai fazer tudo diferente e melhor do que a geração anterior, o seu sonho de ser astronauta ou jogador de futebol, encontrar o amor da sua vida ou o que quer que seja.
Confesso que no primeiro domingo sem a voz do Lombardi, não assisti ao programa Sílvio Santos, nem um trechinho sequer. Mas, como sempre, sabia que ele estava lá e isso já foi o suficiente para sentir uma pontinha de tristeza em imaginar que mesmo estando em dia com o carnê do Baú, o vencedor do sorteio da Telesena não vai ouvir o seu nome anunciado pela voz simpática e indefectível do misterioso Lombardi.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Escândalo novo, elenco antigo.

Tem um velho ditado que é tão popular que virou até pagode: “Pau que nasce torto nunca se endireita”. Esse velho e sábio adágio mais uma vez mostra como a sabedoria popular raramente erra nas suas formulações, embora corriqueiramente erre na hora de escolher seus governantes.
A prova disso é o mais novo escândalo made in Brasília, mas que desta vez nada tem a ver com o Governo Federal ou o Congresso Nacional. O escândalo é novo, mas o protagonista é velho conhecido, um típico “pau que nasce torto”: José Roberto Arruda, o mesmo que há pouco mais de 10 anos renunciou ao mandato de senador para não ser cassado por ter violado o painel de votação, num escândalo que levou ACM a renunciar também.
O que chama atenção dessa vez nem é o golpe propriamente dito e muito menos o seu ator principal, já figurinha carimbada. O que chama atenção é que “nunca na história desse país” tivemos tantas imagens de gente fazendo trambiques diante das câmeras, numa evidência de corrupção explícita, quase como um filme pornô da trambicagem e com direito a toda sorte de bizarrices como dinheiro na meia, na cueca, na sacola, negociação de percentuais de propina, reclamações de corruptos sobre a ganância dos corruptores, tergiversações sobre compras de panetones e até mesmo uma inacreditável oração agradecendo a Deus por enviar um picareta para ajeitar a vida de uns sujeitos com práticas bem pouco cristãs, muito semelhantes aos fariseus da Bíblia, aqueles sujeitos que usam a religião para esconder seus pecados atrás de uma hipocrisia que todo mundo está cansado de ver em todos os credos. Aliás, a hipocrisia e a corrupção, infelizmente, são suprapartidárias, o que torna o conselho do velho Jesus de “Orai e vigiai” ainda mais vital para nossa sobrevivência.
Pra finalizar, essa reza toda dos corruptos de Brasília me lembrou outro ditado popular que muito se aplica a esse momento: “Quanto mais se reza, mais assombração aparece”...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Lula, Caetano e o exame de próstata da ministra.

Outro dia desses, ao defender a candidatura da senadora Marina Silva à presidência, Caetano Veloso disse que Lula era “analfabeto, grosseiro e cafona” e o mundo quase caiu na cabeça dele, já que hoje em dia é praticamente proibido falar qualquer coisa de Lula. Até Dona Canô, do alto dos seus cento e tantos anos, entrou na polêmica e disse que vai ligar para o presidente para se desculpar pelas palavras mal criadas do seu filho. Tá certo que Caetano deu uma exagerada, mas não disse nada muito diferente do que todo mundo fala sobre Lula por aí, mesmo gostando dele e do seu governo.
Vai dizer que quando você vê Lula e Dona Marisa vestidos de caipira, naquela festa junina que eles fazem todo ano, também não acha o presidente cafona? Ou quando ouve discursos ensandecidos como aquele em que ele cita uma frase de Freud (uma que só o Lula conhece, diga-se de passagem) sobre as intempéries do tempo para justificar o apagão, não pensa que falta um pouquinho de banco de escola para nosso presidente?
Quem já leu o livro “Viagens com o presidente”, conhece pelo menos umas dez histórias que não deixam dúvida sobre como o nosso líder maior pode ser grosseiro, como é o caso desse fato que aconteceu entre ele e a candidata do Caetano, Marina Silva, que está narrado na página 71 do livro:

“Numa audiência com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, na época em que o governo começa a discutir a transposição de parte das águas do rio São Francisco, o presidente ouve atentamente a opinião contrária dela às obras e os argumentos favoráveis dos técnicos da área. Apos ouvi-los, Lula consola a ministra:
- Marina, essa coisa de meio ambiente é igual a um exame de próstata, não dá pra ficar virgem toda a vida. Uma hora eles vão ter que enfiar o dedo no cu da gente. Então, companheira, se é pra enfiar, é melhor que enfiem logo”.


O fato é que, independente de ser lulista, anti-lulista ou de concordar ou com o Caetano ou não, nunca na história desse país um presidente deu tanto material para fazer gozação quanto o glorioso presidente Lula.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Sobre o ato de falar besteiras e outras bobagens.

Uma das características mais peculiares dos seres humanos é a capacidade de falar besteira. Falar besteira é um ato inerente à espécie e acomete todas as pessoas de todas as classes sociais. Uns mais, outros menos, mas em algum momento, pode ter certeza, o sujeito vai falar alguma besteira.
Esse prosaico ato nos faz mais humanos, mas, se feito em excesso, nos faz humanos mais idiotas do que os nossos pares. Portanto, é bom evitar falar muita bobagem por aí, já que tudo em excesso é ruim. Estou certo ou falando besteira?
Se a gente julgar o índice de popularidade de Lula e a quantidade de besteira que ele fala, estou, obviamente, errado. Antes que algum Lulista venha me esculhambar ou me chamar de blogueiro vendido ou algo do gênero, vou logo dizendo que nessa constatação não vai nenhuma crítica ao seu governo, mas uma observação sobre o divertido hábito de falar besteira do nosso presidente e como isso tornou-se uma característica extremamente peculiar na sua personalidade pública, quase que uma assinatura indelével em todos os seus pronunciamentos.
Nos últimos dias ele disse duas que me chamaram a atenção. Primeiro disse que se Jesus Cristo fosse presidente do Brasil faria aliança até com Judas. Essa metáfora teológica suscita imediatamente duas perguntas:
1) Quem é o Jesus?
2) Quem é o Judas?
Seria Jesus o próprio Lula? Seria Judas algum deputado mensaleiro ou algum partido fisiológico? Sabe Deus...
A segunda bobagem dos últimos dias foi a resposta do presidente aos que o acusam de transformar eventos e inaugurações oficiais em comícios para sua candidata Dilma. Lula disse que vai inaugurar as obras mesmo e que “o que engorda o porco é o olho do dono”. Mais uma vez, a metáfora, desta vez zoológica, do presidente faz surgir duas perguntas:
1) Quem é o porco?
2) Quem é o dono do porco?
Seria o porco o Brasil? Seria o dono do porco o próprio presidente? Se for isso, que infelicidade comparar nosso país a um suíno e que audácia se intitular dono do bicho. Será que é influência de velhos políticos patrimonialistas como os Sarneys da vida, que agem como se o Brasil fosse propriedade deles?
Prefiro achar que não e que Lula só está exercendo o seu sacrossanto direito de falar as besteiras de sempre e que fazem dele o presidente que melhor se comunica com a grande massa de brasileiros menos – digamos - “letrados”. O engraçado é que Dilma, que não tem um milionésimo do carisma de Lula, está se esforçando tanto para virar popular, simpática e parecida com o presidente que começou a perder o pudor de falar suas besteiras em público e já soltou uma das boas, que beira o nonsense. Criticada por aproveitar a agenda oficial para fazer campanha, o que é óbvio que está fazendo mesmo, ela saiu com a singela desculpa que os que criticam esse ato de fazer campanha eleitoral antes da hora o fazem porque ela é mulher. Que tal?
Companheira Dilma, você, enquanto candidata a presidente e a clone feminino de Lula, ainda vai ter que caprichar muito. Falar besteira com a categoria, a segurança e a competência de Lula não é pra qualquer um. Nosso presidente elevou o ato de falar bobagem a categoria de arte, é um artesão da metáfora sem pé e nem cabeça, um escultor de frases toscamente claras, concisas e diretas, um verdadeiro gênio da raça. Portanto, companheira Dilma, vá com calma, porque você está ao lado de um mestre e essa comparação pode acabar atrapalhando seus planos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Admirável mundo novo.

Sei não, mas algumas dessas modernidades que aparecem a cada instante andam me deixando meio com um pé atrás...
Primeiro veio esse negócio de baixar música na internet. No começo era via Napster, a galera trocava músicas e parecia com o velho esquema de gravar uma fita K-7 para um amigo de um disco que só você tinha. Mas o que começou meio inocente virou um monstro que destruiu a indústria fonográfica.
Até aí, tudo bem. Destruir grandes gravadoras multinacionais, verdadeiros impérios do mal no imaginário coletivo era até legal. Mas e aí? O que veio no lugar? Hoje milhares de bandas disponibilizam música na internet e isso é mais democrático. Beleza. Mas e o artista vive do quê? O direito autoral foi para o espaço. Aí dizem que o artista vive de show. Mas isso é artista famoso. O cara que ta começando vai investir uma grana, gravar sua música e jogar na internet contando que um dia vai ficar tão famoso e requisitado a ponto de viver de shows. Ok, mas quem paga as contas do cara até esse milagre acontecer? E os artistas famosos que não quiserem ou não puderem fazer shows? Os Beatles, por exemplo, fizeram seus melhores trabalhos depois que pararam de fazer shows e se concentraram apenas nos álbuns. Hoje isso seria impossível. Cazuza, quando estava doente, produziu alguns dos seus trabalhos mais importantes e não podia fazer apresentações para divulgar. Se fosse hoje, provavelmente não seria possível.
Outra coisa interessante dessa revolução tecnológica toda é tentar descobrir que artista legal surgiu nesse novo contexto. Não vale dizer Malu Magalhães, né? Tenham paciência!
Agora, a revolução tecnológica que está acabando a indústria fonográfica e a cinematográfica, apontou sua atenção para os livros. O Google diz que vai disponibilizar gratuitamente milhares de livros para download e o tal do Kindle diz que vai acabar com o livro impresso. Ok. Tudo muito bom, tudo muito legal. Mas o escritor vai viver de quê? De show?Alguns dizem que a propriedade intelectual tem que acabar, que o artista tem que criar para o mundo. Ok. E quem paga o aluguel e a luz do cara? É muito confortável dizer isso e ficar baixando o trabalho dos outros de graça na internet, mas é bom começar a pensar numa forma de remunerar quem produz conteúdo, porque se não o futuro vai ter muita tecnologia, muita maquininha, muito computador, celular, Ipod, Kindle e o diabo a quatro, mas não vai ter nada de novo para abastecer tudo isso. Imagine que futuro chato vai ser esse...

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Existencialismo de terceira num feriado de segunda.

Tantos livros para ler, tantas músicas para ouvir, tantos canais e tantos filmes para ver, tantos jornais, tantas revistas, tantos sites, tantos blogs, tantas tecnologias para descobrir e se adaptar, tanta coisa para aprender, tantos trabalhos a serem feitos, tantas besteiras a serem ditas...
Tantos caminhos possíveis, tantos caminhos impossíveis, tantas cidades para conhecer, tantas pessoas para falar, tantos amigos para fazer, tantos inimigos para evitar, tantas mulheres...
Tantos anos para trás, outros tantos e cada vez menos pela frente. Tanta coisa pra fazer e a chuva continua caindo lá fora e ainda mais aqui dentro...
Tanta coisa ainda para ser dita, mas, como diria Mersault, no monumental e fundamental Estrangeiro de Albert Camus que acabo de reler, "tanto faz".

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O futuro a Deus pertence.

Desde antes de ser descoberto, o Brasil já era o país do futuro. Antes mesmo de Cabral aparecer por aqui, já circulavam lendas sobre o paraíso na Terra, uma enorme ilha no Atlântico, de clima tropical, com cidades de ouro e paisagens luxuriantes. Com a chegada dos portugueses por aqui, a lenda, de certa forma, se concretizou ao constatarem que tinham achado um país maravilhoso, onde se plantando tudo dava, sobretudo as nativas locais.
Os séculos passaram e continuamos sempre a ser o país do futuro. Uns mais maldosos até diziam: “O Brasil é o país do futuro e sempre será”. Mas parece que o futuro, essa coisa misteriosa que ninguém sabe bem o que é, chegou e o Brasil corre o risco de virar o país do presente. É petróleo no pré-sal, é Copa do Mundo, é Olimpíadas e agora até dando uma de potência imperialista a gente está, se metendo na crise de Honduras, que não é nosso vizinho, não tem ligação histórica nenhuma conosco e muito brasileiro nem sabia que existia. Os mais maldosos podem até dizer que o próprio presidente Lula só descobriu Honduras agora, mas prefiro nem repetir essa maledicência.
Mas voltemos aos eventos esportivos. Nem bem nos recuperamos das comemorações da escolha do Brasil como sede da Copa e já ganhamos uma Olimpíada. Que beleza! Para a Copa, que vai ser em 2014, não foi batido nem um prego até agora e tem cidade por aí, inclusive a poderosa São Paulo, que nem projeto tem direito. Aí veio o anúncio das Olimpíadas e a patacoada de sempre! O povo na rua comemorando, programas e mais programas sobre o assunto em todos os canais, ufanismo galvãobuenizante por toda parte, capas de revista, gozação com Obama e tudo mais.
Tudo lindo, beleza, sensacional, mas e aí? Quando é que se começa a trabalhar? E quem vai pagar essa conta? E quem vai ficar de olho nos políticos e empreiteiros que no Pan, que é um evento de terceira classe, já superfaturaram em 6 vezes os custos? E os problemas estruturais do Brasil, que na semana que ganhou uma Olimpíada recebeu a vergonhosa 75º colocação no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU? Que hora acaba o oba-oba eterno e a gente começa a transformar essa bagaça num país de verdade?
Esse negócio de ser um país rico com povo pobre não dá mais. Se a gente não mudar isso, corremos o risco de concretizar o que já andam dizendo por aí sobre os jogos olímpicos do Rio 2016, que vai ser ouro para quem está no alto do pódio e chumbo para todo mundo que esta embaixo ou que vamos ganhar medalha em assaltos ornamentais antes mesmo de começarem os jogos.

sábado, 26 de setembro de 2009

Confissões confusas.

Ando meio sem assunto para o blog nos últimos tempos. Minha vida está uma confusão enorme e a culpa nem é minha, quer dizer, não é só minha, pelo menos. Por isso, vou usar esse espaço que eu mesmo me dei para desabafar com vocês que me leem. Antes disso, queria dizer que acho meio bobo isso de falar da gente num blog. Não acho que falar da minha vida seja tão interessante a esse ponto ou que ela seja mais interessante do que a vida de quem quer que seja. Mas, em todo caso, vamos lá.
Nas últimas semanas estou num inferno kafkiano de burocracias, advogados, notas fiscais, bancos, cheques, impostos, darfs e milhares de coisas que nunca imaginei que iria enfrentar. Estou num labirinto repleto de becos sem saída. Um labirinto que entrei há alguns anos, por cinismo e pragmatismo absoluto, num pacto meio diabólico que fiz com uma profissão que nunca me disse muita coisa e nunca me deu maiores satisfações além da financeira ou de algum brilhareco insignificante e fugidio. Como o Fausto de Goethe, vendi minha alma ao diabo, quer dizer, a essa profissão que me garantiu algum dinheiro, conforto e tranquilidade para pagar minhas contas e poder correr atrás de algo que me desse mais prazer.
De certa forma, meu pacto demoníaco funcionou durante muitos anos, embora modestamente, já que não negociei um preço dos melhores com o príncipe das trevas e nem consegui conquistar quase nada do que sonhei. Mesmo assim, o demônio cobra sua conta e quer minha alma de vez.
Para isso, o tinhoso montou uma armadilha difícil de escapar e o pior é que percebi desde o início mas, arrogante e presunçoso, achei que poderia passar a perna no diabo, entrar na sua armadilha, usufruir dos seus benefícios e sair ileso, como das outras vezes. Só que o senhor das trevas não é tão bobo assim e agora, num movimento bem jogado, me encurralou no seu labirinto kafkiano e soltou o Minotauro atrás de mim. O diabo quer minha alma, que vendi barato demais, e não estou nem um pouco disposto a entregar.
Mas não há de ser nada. Se alguém acha que estou derrotado, saiba que, como diria Cazuza, “ainda estão rolando os dados” e se algum capeta desavisado acha que vai me pegar no contrapé, só posso recorrer aos grandes Roberto e Erasmo e avisar que “se você quer brigar e acha que com isso estou sofrendo/ se enganou, meu bem/ pode vir quente que estou fervendo”. E estou mesmo! Embora esteja no meio dessa confusão toda, terminei o meu segundo livro e se tudo der certo, ano que vem ela deve estar por aí. Por mais que o diabo queira me prender, minha cabeça ainda é livre e em breve, todo o resto vai ser também. E quem acha que não vou conseguir, que vá para o inferno no meu lugar!

sábado, 12 de setembro de 2009

Cidade sitiada.

Escrevo direto da cidade dos ônibus flamejantes. Da cidade sitiada por homens invisíveis, que cresceram em bairros que viramos as costas para não ver, que foram crianças que viramos o rosto para não enxergar e que estudaram (ou não) em escolas que nem cogitamos matricular nossas crianças bem nascidas.
Escrevo da cidade que esconde tudo isso atrás dos clichês de felicidade maníaca, de tristeza proibitiva e que faz sol o ano inteiro, mesmo quando tempestades monumentais fazem tudo submergir, casas desabarem e encostas derreterem como se feitas de açúcar.
Escrevo da terra da felicidade eterna, do oba-oba de plástico, das cantoras engraçadinhas e do cinismo generalizado onde, enquanto a seleção brasileira derrotava o Chile e Galvão Bueno dizia que se fazia festa todos os dias, ônibus eram incendiados nas ruas e módulos policiais eram metralhados. Escrevo da cidade onde ninguém acredita em mais nada, onde falta emprego, segurança, saúde, competência, inteligência e discernimento para ver que somos geridos por gente que não consegue gerir nem suas próprias vontades.
Escrevo depois de ler no maior jornal dessa cidade sitiada, um manual de sobrevivência para ataques de traficantes. É quase que um manual de etiqueta para o cidadão achacado, um guia de boas maneiras para o sujeito prestes a ser currado. Se você vive em Salvador ou pretende visitar a cidade, leia esses mandamentos publicados no jornal A TARDE, edição do dia 12 de setembro de 2009:
1 - Se você estiver em um ônibus alvo de atentado, desça do coletivo assim que os bandidos derem a ordem. Evite olhar para os criminosos, sobretudo encará-los.

2 - Os passageiros, uma vez fora do ônibus, assim como transeuntes e veículos próximos, devem se afastar o máximo que puderem do veículo, devido ao risco de explosão. Sem pânico ou correria.

3 - Em caso de tiroteio, nunca corra. Jogue-se no chão ou tente se proteger atrás dos veículos ou equipamentos urbanos mais próximos.

4 - Assim que você estiver em local seguro, chame a polícia.

Anotadas essas dicas, aproveite sua estadia na terra da felicidade, balneário carnavalizante do Brasil, onde é proibido ficar triste e falar de assuntos como esse, fato que caracteriza uma grave ofensa a baianidade reinante e ao espírito republicano do governo que assiste a tudo isso com a tranquilidade de quem veste um velho calção de banho e curte um dia para vadiar diante de um mar que não tem tamanho na praia de Itapuã.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Belchior não tem lugar no país dos bigodes.

Antigamente, uns diziam que o Brasil era uma república das bananas, outros diziam maldosamente que era uma república dos bananas. Atualmente, parece que somos mesmo é uma república dos bigodes, já que nas últimas semanas só se fala dos bigodudos José Sarney e seus atos secretos, Aloísio Merdadante e sua renúncia irrevogável e agora de Belchior e seu misterioso desaparecimento.
Autor de alguns clássicos da MPB, Belchior tem, na minha opinião, uma obra prima chamada “Como nossos pais”, uma das letras mais lindas, verdadeiras e tocantes que conheço. Outro dia, ouvindo a música, também tive vontade de sumir, de desistir, de largar esse país, essa cidade, essa profissão e tudo mais para trás. Nada adianta muita coisa, “eles venceram e o sinal está fechado para nós que somos jovens”, como diz o compositor cearense.
Votei em Lula, vibrei com sua eleição e achava que aquele homem, com aquela história de vida e com aquele partido que tanto defendia reformas, ética e transformações profundas na sociedade ia nos livrar de gente como Sarney. Mas o governo Lula, que nem reputo como ruim, foi muito diferente do que esperávamos. Não houve reforma alguma, os poderosos de sempre continuam mandando e até antigos inimigos históricos do PT como o próprio Sarney, Jader Barbalho, Romero Jucá, Renan Calheiros e Fernando Collor,hoje são novamente os donos da república. Eles, mais uma vez, venceram.
Talvez Belchior também tenha escutado de novo sua própria música e resolveu mandar tudo às favas. Raspou o bigode, foi conversar com um analista amigo dele que disse que desse jeito não dá pra ser feliz direito, perdeu o medo de avião e se mandou, afinal, como ele mesmo diz: “viver é melhor que sonhar”.
Eu, enquanto rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior, torço para que ele reapareça, mas, do jeito que as coisas vão, confesso que se fosse ele pensaria duas vezes antes de fazer isso.